De vez em quando sinto coisas com tanta intensidade que o coração não dá conta de sentir sozinho. Pulsa em desespero, tenta atender a demanda, manter o controle, mas não tem jeito, não cabe. Então sinto nos meus ossos, em cada tecido do esqueleto, que tremem de esforços na tentativa de conter uma avalanche. Mas essa estrutura rígida não foi feita pra suportar um impacto dessa espécie e rapidamente falha. Os sentimentos então vazam ferozmente numa missão obstinada para conquistar o meu corpo. Congelam os meus pés, paralisam os músculos das pernas, causam cãibras, impedem-me de fugir. Partem então para os órgãos vitais. Cortam o meu fígado como estilhaços de vidro, espetam os meus rins como gravetos metálicos, apertam os meus pulmões como uma criança faz com balões de gás. Queimam o estômago, infectam meu sangue, sufocam minha garganta, bloqueiam as vias respiratórias. Ressecam-me a boca, fazem-me zunir os ouvidos, escurecem-me as vistas. Criam uma bizarra pressão embaixo dos olhos e uma dor de cabeça concentrada exatamente atrás da testa. E assim completam o seu cruel objetivo. Dominam a minha carne. Mas não é o bastante. Não é o bastante e o meu corpo é pouco, não aguenta. Tudo isso então transborda pela pele. E eu sinto em cada poro, cobrindo cada milimetro da derme, em instantes envolvendo- a por inteiro, envolvendo-me por inteiro.
E é por isso que meu corpo anseia por outro corpo, o seu corpo, qualquer corpo. Preciso de pele tocando a minha pele, esfregando a minha pele, pressionando a minha pele. Absorvendo isso de mim, roubando um pouco do que eu sinto. Preciso que você me limpe, mas que mantenha sua pele suja colada na minha quando acabar. Faça-me sentir apenas arrepio e calor. Porque esses sentimentos que nascem dentro de mim só fazem sentido quando acompanhados dessas sensações que param na pele. Sem elas, sobra só veneno. Em mim um Inferno queima, mas minha pele é o caminho para o Paraíso e você é o xamã que sabe como me guiar por ele. Chega até a ser irônico que essa pele minha, tão minha, que me conecta simultaneamente ao mundo exterior e ao lado mais oculto da minha alma, e que leva em si marcas e lembranças de ambos, dependa tanto de você, de alguém. Odeio que seja assim, não entendo porque é assim, mas preciso aceitar que sim, é assim. Essa pele tão aflita só se acalma quando se vê em contato com outra, só relaxa nessa situação de tranquilo conforto.
Essa pele. Tudo sobre a pele. Agoniza, queima, arde, sangra, transpira, umedece, arrepia. Conserva cheiros, temperaturas e estados de espírito. Não esconde feridas nem se envergonha de se regenerar lentamente, assim, na frente de todos. Esse ser físico que sofre com o peso do abstrato. Sente seu afeto e sua ausência. Essa pele que sou eu e precisa de você. Essa pele que não tem nada mas é a chave de tudo.
Pele. Pele que sente. No final queria ser só pele.
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