sábado, 13 de outubro de 2012

Resposta de Pele

De vez em quando sinto coisas com tanta intensidade que o coração não dá conta de sentir sozinho. Pulsa em desespero, tenta atender a demanda, manter o controle, mas não tem jeito, não cabe. Então sinto nos meus ossos, em cada tecido do esqueleto, que tremem de esforços na tentativa de conter uma avalanche.  Mas essa estrutura rígida não foi feita pra suportar um impacto dessa espécie e rapidamente falha. Os sentimentos então vazam ferozmente numa missão obstinada para conquistar o meu corpo. Congelam os meus pés, paralisam os músculos das pernas, causam cãibras, impedem-me de fugir. Partem então para os órgãos vitais. Cortam o meu fígado como estilhaços de vidro, espetam os meus rins como gravetos metálicos, apertam os meus pulmões como uma criança faz com balões de gás. Queimam o estômago, infectam meu sangue, sufocam minha garganta, bloqueiam as vias respiratórias. Ressecam-me a boca, fazem-me zunir os ouvidos, escurecem-me as vistas. Criam uma bizarra pressão embaixo dos olhos e uma dor de cabeça concentrada exatamente atrás da testa. E assim completam o seu cruel objetivo. Dominam a minha carne. Mas não é o bastante. Não é o bastante e o meu corpo é pouco, não aguenta. Tudo isso então transborda pela pele. E eu sinto em cada poro, cobrindo cada milimetro da derme, em instantes envolvendo- a por inteiro, envolvendo-me por inteiro. 
E é por isso que meu corpo anseia por outro corpo, o seu corpo, qualquer corpo. Preciso de pele tocando a minha pele, esfregando a minha pele, pressionando a minha pele. Absorvendo isso de mim, roubando um pouco do que eu sinto. Preciso que você me limpe, mas que mantenha sua pele suja colada na minha quando acabar. Faça-me sentir apenas arrepio e calor. Porque esses sentimentos que nascem dentro de mim só fazem sentido quando acompanhados dessas sensações que param na pele. Sem elas, sobra só veneno. Em mim um Inferno queima, mas minha pele é o caminho para o Paraíso e você é o xamã que sabe como me guiar por ele. Chega até a ser irônico que essa pele minha, tão minha, que me conecta simultaneamente ao mundo exterior e ao lado mais oculto da minha alma, e que leva em si marcas e lembranças de ambos, dependa tanto de você, de alguém. Odeio que seja assim, não entendo porque é assim, mas preciso aceitar que sim, é assim. Essa pele tão aflita só se acalma quando se vê em contato com outra, só relaxa nessa situação de tranquilo conforto. 
Essa pele. Tudo sobre a pele. Agoniza, queima, arde, sangra, transpira, umedece, arrepia. Conserva cheiros, temperaturas e estados de espírito. Não esconde feridas nem se envergonha de se regenerar lentamente, assim, na frente de todos. Esse ser físico que sofre com o peso do abstrato. Sente seu afeto e sua ausência. Essa pele que sou eu e precisa de você. Essa pele que não tem nada mas é a chave de tudo. 
Pele. Pele que sente. No final queria ser só pele.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Prólogo Um Pouco Mais Longo do Que o Habitual

Já comecei dezenas de blogs, mas sempre acho extremamente difícil escrever o primeiro post. É um post que carrega muitas expectativas. Tem que ser marcante, cativante, mostrar o conceito do blog, quem você é e porque você resolveu escrever e compartilhar o que escreve.


Eu escrevo porque gosto, mas não consigo mais a muito tempo. Efeito colateral de ter entrado numa escola onde todo mundo era muito bom em tudo, e a pouca auto-estima que eu tinha se sentiu acuada nesse ambiente. Parei de escrever.


No entanto, mais do que nunca, sinto necessitade de escrever.


Sem amarras, sem padrões, sem pretensões de virar fenômeno da web e virar vj da MTV ou sentar no sofá do Jô. Escrever só por escrever.


E é por isso que achei esse título adequado. É originalmente um tumblr que fiz há dois dias, mas percebi que falo muito pra uma plataforma como aquela, então resolvi fazer um blog pra acompanhar. Mas voltando ao título, ele se deve a diversos motivos, os quais eu expliquei no primeiro post do Tumblr, então só vou dar um ctrl C ctrl V aqui!


"Inventário por 3 motivos: o significado real, o significado pra mim e uma música que engloba os dois.


Inventário é a relação de bens - materiais, quase sempre - deixados por alguém. Mas aqui leve em conta mais que isso. Inventário passa a ser o conjunto dos valores agregados em você por suas experiências pessoais, os passados por outras pessoas a você e também os que você deixa para outras pessoas. Fez sentido?


O segundo é porque desde pequeno gostei da palavra "inventário". Achava que era o nome dado a parte do cérebro responsável por inventar as coisas, ou era como se chamava um bloquinho em que se anotava pensamentos. Sempre associei essa palavra a imaginação.


E o terceiro, e provavelmente mais importante é a música "Inventaire" do filme "Canções de Amor", que além de ser um dos filmes que mudou minha vida (e que desempenha papel fundamental no meu inventário!), é uma letra com a qual eu me identifico muito e tem tudo a ver com a proposta."




Bom, agora que está tudo explicado, podemos começar! :)